Sempre nos perguntam de onde vem a motivação da Expedição Vaga Lume para trabalhar em locais tão remotos, em condições tão desfavoráveis. Costumamos dizer que vem de dentro. Essa motivação que vem de dentro foi a responsável pela criação do projeto. Mas para a continuidade e aprofundamento do trabalho, a motivação vem também de fora, em forma de singelas cartas vindas de inúmeros cantinhos do Brasil.
“A Biblioteca Jose Marti foi fundada no dia 18 de novembro de 2002, a partir de um curso de mediadores de leitura promovido pela Expedição Vaga Lume que reuniu educadores e educadoras do campo. Nossa biblioteca esta localizada a margem direita da BR 316, sentido Belém-Brasília, no assentamento João Batista II, próximo a agrovila Bacuri, a 22 km do centro da cidade, município de Castanhal, Para. Fica aberta ao publico da comunidade local e vizinha, nos horários úteis ao funcionamento da escola: pela manha das 10h as 11h, pela tarde das 14h as 17h e pela noite das 19h as 20h. A biblioteca funciona a partir do estatuto feito pelos educadores e educadoras do Assentamento e coordenadoras da Expedição Vaga Lume.” (Valéria Lopes, setembro de 2004).
Valéria, a autora do relatório, tem 20 anos e era uma aluna atenta durante a semana de formação que promovemos em seu assentamento. Desde então, ganhou função de destaque na comunidade, sendo nomeada bibliotecária. De todas as informações emocionantes que traz seu relatório, a mais motivadora e sobre o volume de retiradas de livros da biblioteca: em 21 meses de funcionamento, foram 4340 empréstimos, uma media superior a 200 livros retirados por mês! Parece apropriada a homenagem ao herói da independência cubana Jose Marti, quem disse que ‘Ser culto e uma forma de ser livre’.
Sandro, um jovem voluntário da comunidade Menino Deus, no Rio Acangatá, município de Portel, Para, participou da formação promovida para representantes de 10 comunidades rurais de seu município. “Estou escrevendo para informar-lhes sobre a minha missão como mediador de leitura, sobre as pessoas, que são os alunos, sobre a importância desta tarefa e sobre as expectativas que vão surgindo” (Sandro Moreira da Silva, janeiro de 2005).
Ele conta que reuniu 21 crianças em sua comunidade e montou com elas um grupo de leitura. Com a aprovação de seus pais, combinaram a data e hora do primeiro encontro: um domingo as 6 horas da manha (!!!). “Chegando o dia, eu me levantei as 5 horas e 45 minutos, arrumei-me e fui para o encontro. Quando cheguei, 98% das crianças já me aguardavam, ansiosos para conhecer os livros e manusea-los.” Sandro conta que pretende formar novos grupos na comunidade e que tem saudades dos amigos que fez nas comunidades do Rio Anapu durante a semana de formação.
Com Valérias e o Sandros para nos motivar, o vaga-lume segue em frente, trabalhando para que sua luz se multiplique e seja duradoura.
Há muita discussão em torno dos baixos índices de letramento entre a população brasileira. ‘Brasileiro não gosta de ler’, crêem uns, ‘aqui faz muito calor, o povo é preguiçoso’, dizem outros. Não é por falta, no entanto, de pregações sobre a importância da leitura: para ser alguém na vida, para passar de ano ou conseguir um bom emprego, a leitura é o passaporte. Afinal, o que é necessário para que alguém se torne leitor? Certamente não há uma única resposta para essa questão. Livros de muitos tipos e tamanhos, sobre os mais diversos assuntos são fundamentais para seduzir o público. Mas será que são suficientes? Por que, então, existem tantas biblioteca públicas, cheias de livros, que vivem às moscas, sem leitores? Por que pessoas que têm livros à sua disposição não são leitores assíduos?
Se livros fossem suficientes, o problema estaria resolvido: bastaria distribuí-los e o mundo estaria povoado de leitores! Mas livros não são vivos, não têm pernas para ir àqueles que nunca os procuram e nem boca para contar suas histórias. Por isso eles precisam de pessoas. São pessoas, e não livros, que formam leitores! Através de tios, pais, mães, avós, irmãos, professores, bibliotecários conhecemos os livros e nos aproximamos (ou nos distanciamos) deles.
Na Expedição Vaga Lume, investimos na formação de pessoas capazes de fazer a ponte entre os não-leitores e os livros. São conhecidos como mediadores de leitura os simpáticos cidadãos dedicados a esta tarefa. A formação é voltada para a reflexão sobre sua relação com a leitura em três níveis cumulativos: individual (eu como leitor), grupal (eu como mediador) e comunitário. Com diretrizes simples como criar um ambiente agradável, valorizar as escolhas dos ouvintes, aceitar diferentes reações, ler o texto mostrando as figuras e não fazer verificações de leitura, os mediadores não estão preocupados com a importância e sim com o prazer de ler.
“Em 7 de fevereiro de 2005, na casa do Senhor Antônio de Oliveira e sua família, trabalhei com mediação de leitura. Seu Antônio mora na margem esquerda do Rio Acangatá. Ele já conhece muito bem o meu trabalho e faz parte da nossa comunidade, mas mora distante da Vila do Menino Deus e de onde está a biblioteca. Quando cheguei, ele logo falou: ‘Desembarca logo os livros e cuida de ler para nós!’. Por motivo de muita chuva trabalhamos em sua cozinha. Seu Antônio não sabe ler nem escrever, mas adora livros, aliás em sua casa, ninguém sabe ler nem escrever” (carta de Valdo Palheta Alves, professor na comunidade Menino Deus, Portel, Pará).
Valdo é um dos simpáticos cidadãos que a Expedição Vaga Lume teve o prazer de formar como mediador de leitura. Professor em uma creche municipal, além de ler para seus alunos ele percorre casas de ribeirinhos, emprestando sua voz às obras de inúmeros autores. Com simplicidade, Valdo nos prova que para levar o desenvolvimento à floresta não é necessário abrir estradas. E que é preciso rever nossa auto-imagem: brasileiros gostam de ler sim, até mesmo aqueles que nunca foram à escola.
Barcelos é o maior município em extensão territorial do mundo. Sua área equivale a quatro vezes o território da Suíça. Há dezenas de rios na região, todos afluentes do principal deles, o Rio Negro. O quadro social neste gigantesco município amazonense, onde há escolas rurais distantes 12 dias de barco da cidade, deixaria boquiaberto qualquer cidadão suíço. Cercados de matas, os habitantes buscam fontes de renda complementares à agricultura de subsistência. Desde a decadência dos seringais, Barcelos se especializou na extração de dois produtos da floresta: peixes ornamentais e piaçava, para confecção de vassouras.
Piaba, na linguagem local, significa peixe pequeno. Os piabeiros, como são conhecidos os pescadores de peixes ornamentais, conhecem boa parte das duas mil espécies de peixes do Rio Negro. Dentre os ornamentais, o de maior procura é o Cardinal, recolhido com o auxílio do rapiché (rede de pesca) ou do cacuri (armadilha). Os piabeiros não têm barcos grandes nem caixas apropriadas para o transporte dos peixes vivos, por isso vendem o que pescam aos compradores que vão até eles. Quem dá o preço são os compradores: R$ 7,00 o milheiro (ou seja, mil peixes cardinais!). É necessário vender no mínimo 40 mil cardinais por mês, para que o piabeiro alcance uma renda familiar de um salário mínimo. O comprador vende o mesmo milheiro de peixes por R$ 12,00 ao comerciante em Barcelos, que vende por R$ 50,00 ao exportador de Manaus, que vende pelo triplo do preço aos atacadistas em São Paulo e Miami... e assim segue a quadrilha. Quanto mais longe o peixe fica de sua origem, maior a margem de lucro do comerciante.
Um cidadão suíço ficaria estarrecido ao conhecer as condições de vida dos piaçabeiros, um degrau abaixo na escala social barcelense. Trabalhadores dos piaçabais recebem R$ 0,20 pelo quilo da piaçava cortada dos chamados patrões. Os patrões, que recrutam e transportam caboclos para trabalharem como piaçabeiros, vendem os gêneros de primeira necessidade a preços exorbitantes, de forma que os trabalhadores ficam presos ao piaçabal pelas dívidas que acumulam. Quando a piaçava acaba em determinada localidade, os patrões se encarregam de levá-los a outra, ainda mais distante de Barcelos. As crianças, filhos dos piaçabeiros, não estudam, pois não há escolas nos piaçabais. Não raro, ajudam aos pais em seu trabalho.
A distância parece eximir a sociedade de suas responsabilidades. É como se a cidadania ainda não tivesse fôlego para percorrer longas distâncias; como se ela estivesse a bordo de uma canoa a remo, enquanto a Exploração navega em uma lancha rápida. Enquanto piabeiros e piaçabeiros permanecem no anonimato, aquários decoram salas de estar e vassouras piaçava varrem terraços ensolarados. Um cidadão suíço não seria capaz de compreender as razões de tamanho atraso.
Este ano, buscamos recursos para reforçar os acervos das bibliotecas nas comunidades onde atuamos. Livros novos, selecionados com base na qualidade literária, estética, editorial e na capacidade de encantar. Incluímos periódicos no acervo das bibliotecas Vaga Lume. Além de gibis com histórias em quadrinhos, a revista Ocas entrou na lista e foi recebida com curiosidade pelos novos leitores. Na aldeia Campinas, em Cruzeiro do Sul, Acre, o professor Kayã folheava um exemplar. Preocupado com alternativas de desenvolvimento para seu povo Katukina, não soube de imediato que tinha em mãos o exemplo concreto e bem sucedido de uma ‘solução alternativa’. Ocas é uma solução. Ocas é uma alternativa.
Nos últimos 12 meses, Ocas possibilitou a Associação Vaga Lume cumprir sua missão de divulgar aspectos da vida cotidiana na Amazônia Legal Brasileira a sociedade. Em outras palavras, a parceria com Ocas, possibilitou aos vaga-lumes pôr a boca no trombone. Dividir com os leitores a satisfação de desbravar, a inquietação de saber e a frustração de encontrar os limites de nossa ação no mundo. A todos os leitores, obrigada pela companhia.
Para você que ouviu o som grave do nosso trombone vai o apelo: propague-o. Há muitas pessoas simpáticas à “causa amazônica”. Mas é preciso mais que simpatia para fazer a diferença. É preciso antes de tudo reconhecer nossa ignorância a respeito da realidade de nosso país. Em seguida, é preciso romper com a ignorância e construir um plano. Sem demora, é preciso partir para a luta. Neste exato momento, ao norte do Mato Grosso, sul do Pará ou em qualquer parte de Rondônia a floresta e sua gente são maltratadas. E não é por gringos disfarçados de padres. É por brasileiros como eu e você.
Pegue o seu trombone e faça a sua parte - transcenda o slogan e busque o sentido desta frase na sua vida. Encontre sua forma de melhorar o mundo: abra mão do canudinho plástico, separe o lixo, cuide do seu impacto ambiental. Escolha assuntos relevantes para ocupar seu precioso tempo. Mude de opinião. Olhe nos olhos do menino que pede um trocado no farol. Deixe de lado a vida-das-pessoas-que-passam-na-TV e ocupe-se dos cidadãos anônimos. Ouça as histórias que os velhos têm para lhe contar. Divulgue Ocas.
Aos editores, que dedicam há três anos parte de si para construir esse veículo de comunicação e inclusão, obrigada pela oportunidade.
Silêncio agora, para ouvir os que vêm vindo. Atenção à voz da periferia urbana. Quanto ao nosso assunto - a Amazônia, seus habitantes, suas contradições - encerra-se aqui a coluna. Mas não a discussão, que está apenas começando!